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| você já ouviu falar de mim |
Semana passada estreou nos cinemas nacionais Jogos Vorazes (The Hunger Games) baseado no livro de mesmo título. Meu objetivo aqui não é falar sobre a série ou entrar em seus méritos e deméritos (adianto, porém, que li o primeiro volume e achei bem bacana e até ousado para um livro de entretenimento), mas sim discutir uma das questões centrais que permeiam tanto a versão cinematográfica quanto o livro: o (bizarro) mundo dos reality show.
É inegável que desde o advento dos reality shows, eles passaram a fazer parte da televisão. Aqui no Brasil, o primeiro a cair de verdade no gosto popular foi "A casa dos artistas" (última empreitada de sucesso do sbt? talvez). A razão de ser desse post é especular o porquê desse tipo de programa ter um público tão grande.
Uma das coisas mais fascinantes nesse tipo de programa é que ele é, obviamente, editado. Embora exista a opção do pay-per-view, poucas pessoas dedicam-se tanto assim (fora que, menos assim ainda existe um certo controle do que é exibido). De qualquer forma, a edição deve condensar em alguns minutos os acontecimentos de um dia. Esse condensar torna-se, por vez, a criação de uma narrativa que possa ser acompanhada pelo espectador e que, invariavelmente, segue os mesmos "caminhos" que as narrativas ficcionais com as quais o público está acostumado. Dessa forma, o espectador se vê novamente no conforto da previsibilidade que rege a maioria das produções que acompanham diariamente na televisão.
Esse processo é, ouso dizer, uma ficcionalização da realidade. Essa experiência limite tem em seus espectadores o efeito de torná-los indiferentes à realidade do outro - especialmente quando somamos esse processo ao empoderamento do espectador, que passa a ter poder de decisão sobre a vida daqueles que observa. Ao colocar o público na posição de juiz, é exigido então que sejam emitidos um juiz de valor acerca das atitudes e personas de cada um dos jogadores. A situação torna-se ainda mais difícil de decifrar quando pensamos nos "jogadores" como conscientes de estarem sendo observados e julgados constantemente. O melhor jogador costuma ser, portanto, aquele capaz de ou enganar o público ou conquistá-lo de forma genuína. Porém, para isso, é necessário que surjam antagonismos. Vemos então, as pessoas assumindo papéis e o desenrolar da trama. Até o momento em que algo nos faz lembrar que ali estão pessoas de verdade.
Sei que estou, aqui, arranhando a superfície de uma questão complexa. Interessa-me, aqui, somente os reality shows que consistem em jogos. Devemos, no entanto, lembrar que já existem outros tipos, sendo o menos interessante para nossa reflexão aquele em que acompanhamos a "vida" de alguém pelo simples motivo que a ficcionalização é explícita. A construção da imagem se dá a olhos nus, sendo mais bem sucedida quando se torna mais imperceptível.
Nesses jogos, uma coisa se perde: a identidade. O sujeito que ingressa nesses jogos vende sua identidade em troca de um objetivo (a fama, o dinheiro... ou, no caso de Katniss Everdeen e sua distopia, a sobrevivência). No entanto, a heroína resiste... talvez essas heroínas estejam escassas na vida real. E nosso público, por não se enxergar em uma distopia (não ousaria dizer "por não viver") reage menos. Enquanto isso, a linha entre ficção e realidade torna-se cada vez mais tênue.... ou talvez tenha sempre sido. Como nos primórdios do romance (enquanto gênero literário) em que os autores lançavam mãos de técnicas que criassem sempre o efeito da verossimilhança... talvez estejamos meramente diante de uma nova técnica de ficção. Uma que, infelizmente, não desafia seu espectador.